
Campanhas, perguntas, e poucas respostas…
Fevereiro 3, 2007As campanhas eleitorais foram inicialmente desenhadas para atrair pessoas a votarem de acordo com quem cria a campanha. Faz sentido, e normalmente deveria ser assim. Depois passou-se à fase de tentar ridicularizar a imagem da posição oposta. Neste momento com a campanha para o referendo sobre o aborto, só me fazem pensar que na melhor das hipóteses estão a tentar ser menos ridículos que os adversários. E se é isso estão a falhar redondamente.
Cada vez que oiço a campanha do “Não” fico com vontade de votar “Sim”, e cada vez que oiço a campanha do “Sim” fico com vontade de votar não. E o pior é que raramente oiço tentativas de respostas para as perguntas que me fazem pensar mais seriamente sobre o meu voto. Não vou dizer aqui a minha intenção de voto, até porque ainda está indifinida e pelo que disse em cima cada vez mais a caminhar para um voto em branco, mas quero deixar algumas perguntas, que quem quiser pode responder, ou apenas reflectir.
Para quem fala no não:
- A maioria diz realmente que não deve ser criminalizado o aborto, apesar de discordarem com a sua liberalização. Que tipo de punição, ao passar a contra ordenação em vez de crime, sugerem. E como e quando legislar sobre isso?
- Onde esperam ir buscar fundos para combater o aborto ilegal, de forma preventiva, e como?
- O que fazer caso dentro de dez anos, ao contrário do que aconteceu nos últimos dez, o aborto clandestino estiver a aumentar de novo?
E para quem pensa votar sim:
- O que acham que meses antes do referendo ser sequer anunciado, já empresas espanholas terem autorização do governo socialista para abrirem clínicas abortivas nas grandes cidades portuguesas, tendo até já comprado terrenos.
- Num país em que as consultas médicas no estado são dificeis de arranjar a tempo e horas, e pior ainda as operações pior ainda, como pode o sistema público de saúde disponibilizar este serviço? E às custas de retirar médicos a que serviços?
- Como prevenir que o aborto se torne apenas e só mais um metodo contraceptivo? É que muitas das respostas de jovens que se tem ouvido é que querem mais tranquilidade pois não gostam de tomar medicação regularmente, ou de “plástico”.
São apenas três perguntas para cada lado, que me fazem pensar, e que na maioria das vezes ainda não têm tido resposta. Infelizmente. Mas quem vê as coisas de um prisma marciano… sou eu.





“A maioria diz realmente que não deve ser criminalizado o aborto, apesar de discordarem com a sua liberalização. Que tipo de punição, ao passar a contra ordenação em vez de crime, sugerem. E como e quando legislar sobre isso?”
Se não for punição com anos de prisão ou é punição monetária ou trabalho comunitário. Se assim for que seja pela terceira já que uma grande razão para se abortar é não ter dinheiro para criar a criança. Contudo uma mulher que acabe de ser mãe precisa de ter tempo para a criança e estar e ter de fazer trabalho comunitário não é propriamente bom.
“Onde esperam ir buscar fundos para combater o aborto ilegal, de forma preventiva, e como?”
De certeza que não vão andar por aí a angariar fundos portanto devem ir busca-los ao estado (que não os tem) que por sua vez os vai buscar à população com os impostos (que ninguém quer). Too bad, right?
“O que fazer caso dentro de dez anos, ao contrário do que aconteceu nos últimos dez, o aborto clandestino estiver a aumentar de novo?”
Continuar na mesma ou voltar a passar novamente por todo este processo de referendo para ver se a lei muda. Not very smart.
“O que acham que meses antes do referendo ser sequer anunciado, já empresas espanholas terem autorização do governo socialista para abrirem clínicas abortivas nas grandes cidades portuguesas, tendo até já comprado terrenos.”
Em primeiro isto é para ser uma questão ética e para mudar a lei criminal, não uma questão política (teóricamente). Contudo, quanto a esse ponto, acho bem e mal.
Acho que agiram mal porque é em parte ir contra o “não” do referendo (mas só em parte já que ir a uma clínica espanhola abortar não está ao nível da grande maioria das mulheres que abortam).
Depois acho que agiram bem porque assim, mesmo que o não ganhe, há sempre quem possa abortar sem necessitar de ir a espanha tornando assim um serviço que todos sabem que é usado bem mais perto.
“Num país em que as consultas médicas no estado são dificeis de arranjar a tempo e horas, e pior ainda as operações pior ainda, como pode o sistema público de saúde disponibilizar este serviço? E às custas de retirar médicos a que serviços?”
Esse, é sem dúvida, o maior ponto contra o “sim”. A meu ver (e isto é a opinião de quem não está muito dentro dos serviços de saúde) as maternidades parecem-me ser os serviços mais indicados para se transformarem em clínicas de aborto e como o número de nascimentos em Portugal tem diminuído nos últimos anos (segundo os telejornais e o governo que mandou fechar maternidades) são então serviços que estão mais leves em termos de procura e número de pacientes.
“Como prevenir que o aborto se torne apenas e só mais um metodo contraceptivo? É que muitas das respostas de jovens que se tem ouvido é que querem mais tranquilidade pois não gostam de tomar medicação regularmente, ou de “plástico”.”
Este é o ponto mais delicado e contudo o menos esclarecido. Em primeiro há que ter em atenção as transformações psicológicas e físicas que uma gravidez causa na mulher. É bastante difícil, para uma mulher grávida, estar a abortar. Só uma pequena minoria das mulheres é capaz de abortar sem muitas dificuldades e sem ficar com problemas de consciência. Para as jovens é fácil dizer “se engravidasse agora ía imediatamente abortar” mas a verdade é que quando a gravidez ocorre elas acabam por ficar a pensar duas vezes. Para os jovens é tudo facil. Engravidar, abortar, voltar a engravidar, voltar a abortar. Metade deles não faz a mínima ideia e que custa abortar (tanto psicológicamente como fisicamente) e muitos da outra metade esquecem-se de como uma gravidez muda a mulher (as vontades mudam, as prioridades mudam, as opiniões mudam, o corpo muda e a maneira de ver as coisas muda. Muda mesmo muita coisa na mulher e isto está mais que estudado e provado).
Depois já minitros disseram “caso o sim ganhe é necessário criar entidades que acompanhem as mulheres antes e depois do aborto”. Para quê? Não só para verificar as condições físicas da mulher como para avaliar se é realmente a sua vontade abortar. Mas isto é óbvio. Os abortos não se fazem num piscar de olhos. Há um processo antes e depois do aborto. Só os clandestinos se fazem num piscar de olhos. Só mesmo esses e é por isso que são perigosos.
Mas isto são apenas as minhas respostas a cada uma das perguntas.
A questão central deste refrendo, parece estar a passar ao lado de muito boa gente, que diz estar por dentro do sistema de saúde. Porque não se trata de liberalizar, mas sim de despenalizar, que são coisas diferentes. Querem é misturar as duas coisas porque lhes convém. Se não sabem destinguir as duas situações, será fácil de constatar que criminalizar, não é sinónimo de penalizar.
[...] Outra pessoa que também apresentou diversas possibilidades para este referendo foi o Bruno do Olhar Marciano que nos apresentou “Campanhas, perguntas, e poucas respostas…” [...]